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Pluribus - 1ª Temporada
Quando o assunto é Vince Gilligan, a expectativa por grandes ideias é quase automática. Diretor e roteirista à frente de seu tempo, Gilligan construiu sua carreira explorando subtextos complexos e questionamentos profundos sobre moralidade, ética e transformação humana. Esse DNA autoral está presente em praticamente todas as suas obras e reaparece em Pluribus, nova série da Apple TV+, que marca o reencontro criativo com Rhea Seehorn, após a consagrada parceria em Better Call Saul.
A série parte de uma premissa instigante: Pluribus acompanha “a pessoa mais infeliz do mundo”, aquela que precisará salvar o planeta da felicidade. Em um cenário dominado por uma onda forçada de positividade, a escritora Carol Sturka surge como uma das poucas pessoas imunes a um vírus que transformou a humanidade em uma massa homogênea de alegria artificial. Conhecidos como “Outros”, os infectados vivem em constante satisfação, enquanto apenas doze indivíduos permanecem emocionalmente intactos, grupo do qual Carol, amarga e instável, faz parte. Recusando-se a integrar essa nova ordem mundial, ela se torna uma ameaça silenciosa ao sistema. Apesar da força conceitual, Pluribus evidencia que nem mesmo grandes autores são infalíveis. A história recente da televisão e do cinema comprova isso, com exemplos como Tenet (Christopher Nolan), Coringa: Delírio a Dois (Todd Phillips), Alien 3 (David Fincher) e Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades (Alejandro G. Iñárritu).
A nova série de Gilligan está longe de ser um fracasso, até porque se encontra em sua primeira temporada, mas já apresenta falhas estruturais que, se não forem corrigidas, podem comprometer seu potencial a longo prazo. O principal problema está no ritmo. A condução excessivamente monótona das cenas remete de forma direta à linguagem de Breaking Bad e Better Call Saul, o que, neste caso, soa menos como assinatura autoral e mais como repetição desgastada. Em diversos momentos, Pluribus parece uma série de ficção científica ambientada no mesmo universo de Walter White, uma associação que não favorece a identidade própria da obra. A forma como os episódios são filmados, iniciados e conduzidos segue uma fórmula já conhecida, que aqui se mostra desnecessária.
Ainda assim, a série se sustenta pelas teorias e questionamentos que propõe. É essa camada reflexiva que mantém o espectador interessado, em uma dinâmica semelhante a produções como Stranger Things e Dark. No entanto, torna-se urgente, pensando em uma segunda temporada, ajustar o andamento da narrativa. Sequências excessivamente longas, como minutos dedicados a ações triviais, comprometem o envolvimento e diluem a tensão dramática. Com ajustes pontuais, especialmente no ritmo e na busca por uma identidade menos dependente de trabalhos anteriores, Pluribus tem potencial para se tornar um fenômeno dentro do catálogo da Apple TV+, a exemplo de Ruptura. O material em mãos é rico, e a qualidade do roteiro permite ousar mais. Persistir em uma fórmula já explorada, porém, parece um caminho desnecessário para um projeto que poderia ir muito além.
Joinhas:
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Por:
@eduardomontarroyos