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Crítica:

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Natal Amargo

“Amarga Navidad”, ou “Natal Amargo”, é o novo filme do renomado diretor espanhol Pedro Almodóvar. O longa se desenvolve a partir de duas histórias que, ao longo da narrativa, começam a dialogar entre si. Aos poucos, o espectador percebe que uma delas parece se aproximar, em certa medida, da realidade do próprio diretor, trabalhando bastante com a ideia de autoficção. A primeira história tem como personagens principais Elsa, interpretada por Bárbara Lennie, e Bonifacio, interpretado por Patricio Criado.

No início do filme, Elsa acorda com uma forte enxaqueca que não passa de forma alguma. Por causa disso, ela pede a Bonifacio que a leve ao pronto-socorro. Mais tarde, Elsa descobre que aquilo que parecia ser apenas uma enxaqueca era, na verdade, uma crise de pânico. Diante disso, Elsa pede ajuda a uma amiga chamada Patricia, interpretada por Victoria Luengo. Elsa procura por um remédio que Patricia havia mencionado, mas, como ela não tinha o medicamento, acaba indo atrás de outra amiga. A partir desse momento, o filme também evidencia como Elsa não consegue parar de trabalhar. Mais à frente, entendemos que esse excesso de trabalho acontece desde a morte de sua mãe, o que pode ser interpretado como uma tentativa de lidar com o luto, ou até mesmo de evitá-lo. Em vez de enfrentar diretamente a perda, Elsa se mantém constantemente ocupada, como se o trabalho funcionasse como uma forma de distração emocional.

Depois disso, Elsa passa a se consultar com uma psiquiatra indicada por Patricia. Durante as sessões, a médica recomenda que ela viaje e passe um tempo fora, justamente para se afastar da rotina sufocante e começar a processar melhor aquilo que sente. Antes da viagem, Elsa se encontra com Patricia, que está abalada ao descobrir que o marido a estava traindo. Em meio aos surtos e ao sofrimento de Patricia, as duas acabam decidindo viajar juntas. Durante a viagem, Elsa se sente tão em paz que começa a retomar a ideia de escrever filmes. Aos poucos, ela volta a tentar escrever novamente.

Patricia, então, pergunta sobre o que Elsa está escrevendo, e ela responde que seria algo mais ou menos baseado nas duas naquela ilha. Essa revelação deixa Patricia bastante mal. Ela pergunta se a história também falaria sobre seu marido, e as duas acabam entrando em conflito. Isso acontece porque Patricia ainda não consegue se desprender dele, mesmo depois de tudo o que ele fez. Mais tarde, naquele mesmo dia, ela liga para o marido, conta onde está e pede para que ele vá buscá-la. A partir desse conflito, o filme começa a mostrar de forma mais clara como a criação artística pode tocar em dores muito pessoais.

A segunda história apresenta Raúl Rossetti, interpretado por Leonardo Sbaraglia. A partir desse núcleo, entendemos que os acontecimentos da primeira história estão sendo escritos por Raúl, que se insere na narrativa de uma maneira interessante. Pedro Almodóvar utiliza bastante a ideia de autoficção, misturando criação artística, memória e experiência pessoal de forma muito envolvente. Esse recurso afeta diretamente a construção de Raúl, que, em alguns momentos, chega a explicar essa relação entre vida e ficção, aproximando-se quase da figura do próprio diretor. Essa impressão se fortalece mais para o final do filme, quando percebemos melhor essa conexão. Além disso, Raúl é apresentado como um cineasta que não faz filmes há anos, o que torna sua relação com a escrita e com a própria história ainda mais significativa.

A comédia do filme também é muito interessante e bastante característica de Almodóvar. Raúl funciona quase como uma caricatura perfeita do diretor, o que faz com que entendamos melhor seus sentimentos e também percebamos que os eventos do filme podem carregar diversas referências à vida pessoal e à trajetória do próprio Almodóvar. Ao mesmo tempo, essa estrutura deixa algumas confusões no ar, ainda que elas sejam explicadas de maneira sutil ao longo do filme. O ponto mais interessante dessa construção está justamente na forma como o longa mostra os limites da autoficção, principalmente quando uma ex-trabalhadora de Raúl analisa seu roteiro e percebe muitos elementos da vida pessoal dela e de sua companheira no texto. Mesmo com Raúl tentando se explicar, o conflito se torna enorme, pois aquilo que estava sendo contado envolvia a perda de um filho. No fim, Amarga Navidad trabalha suas duas histórias de maneira satisfatória, misturando comédia, drama, luto, criação artística e autoficção de uma forma bastante característica de Pedro Almodóvar.

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Por:

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