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Crítica:
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Isso Ainda Está de Pé?
“Is This Thing On?” ou “Isso Ainda Está de Pé?” nasce de uma premissa forte: um homem comum que, após o início do divórcio, encontra no stand-up uma forma de sobreviver emocionalmente. Inspirado na trajetória de John Bishop, dirigido por Bradley Cooper e estrelado por Will Arnett e Laura Dern, o filme tenta equilibrar drama conjugal, reconstrução pessoal e humor. A ideia é potente, a execução, irregular.
Alex não é comediante desde o início, ele se torna um. O palco surge como catarse após a separação de Tess. Porém, o roteiro compromete o realismo ao nunca mostrar seu outro trabalho. Ele cuida dos filhos durante o dia e faz stand-up à noite, mas não sabemos como sustentar essa rotina. Essa lacuna enfraquece a construção do personagem. Os filhos, que alternam dias entre a casa do pai e da mãe, descobrem a nova face de Alex lendo suas piadas no caderno. É um detalhe sensível e simbólico, eles conhecem a versão pública do pai através das palavras escritas. Ainda assim, a cena perde força pela atuação exagerada e pela falta de aprofundamento emocional. Além disso, o grupo de amigos introduzido no início também carece de densidade. Arnie e Christine têm conflitos que poderiam funcionar como espelho do casal principal, mas tudo é desenvolvido de forma apressada. Christine admite sentir raiva de Alex por desejar ter a coragem dele; Arnie decide querer o divórcio inspirado no amigo, justamente quando Alex e Tess começam a se aproximar. São ideias boas, mas tratadas sem o peso necessário.
Visualmente, o filme apresenta acertos claros. O plano-sequência no trem, logo no início, demonstra controle técnico e estabelece intimidade de maneira elegante. Há também momentos em que a câmera traduz o estado emocional de Alex com sensibilidade. No entanto, essa inventividade não se mantém. Muitas cenas cruciais são filmadas de forma estática, excessivamente convencional, como se a direção esquecesse o potencial que já demonstrou. Comparando com Nasce Uma Estrela, percebe-se que aqui há mais contenção, mas menos intensidade dramática contínua. Um ponto central é o humor. Sendo uma dramédia sobre um homem que descobre o stand-up, espera-se que as piadas sustentem parte do impacto. O filme mostra outros comediantes no palco enquanto Alex inicia sua trajetória, mas o efeito cômico é limitado. O próprio protagonista raramente provoca risadas significativas. Pode haver uma barreira cultural, mas a sensação é que a comédia não atinge a força que o roteiro pressupõe. Sem isso, o equilíbrio entre drama e humor fica comprometido.
Ademais, o filme concentra tanto seu olhar em Alex que esquece que sua vida é partilhada com Tess. Laura Dern está excelente no papel, sua presença é segura, madura e emocionalmente complexa, mas aparece pouco. E quando aparece, suas cenas são aceleradas. Tess, que é apresentada como ex-jogadora profissional de vôlei, decide retornar ao esporte, surge em um treino e, quase imediatamente, já está assumindo a posição de treinadora da seleção. Essa progressão carece de construção. Sua trajetória profissional, que poderia funcionar como paralelo à reconstrução de Alex, é resumida em transições rápidas e pouco desenvolvidas. Essa escolha narrativa cria um desequilíbrio, o filme mergulha na crise de identidade de Alex, mas não oferece o mesmo espaço para Tess. Como resultado, a história de um casal acaba parecendo a história de um homem com participações ocasionais da ex-esposa, quando deveria ser um retrato de duas trajetórias que se entrelaçam.
Entretanto, o desfecho sintetiza esse problema de ritmo. Após um diálogo breve em que Alex afirma preferir ser triste com Tess a ser feliz sem ela, o filme acelera para a apresentação escolar ao som de “Under Pressure”. Tess corre, chega no último momento, abraça e beija Alex, simbolizando a reconciliação. A intenção é clara, mas a construção é rápida demais para sustentar plenamente o impacto emocional. Se o filme tivesse mostrado os filhos ensaiando “Under Pressure” ao longo da narrativa, começando de forma descompassada, refletindo a instabilidade da família, enquanto a relação de Alex e Tess fosse sendo reconstruída gradualmente, o final teria uma força simbólica muito maior. A harmonia musical poderia representar a harmonia afetiva recuperada. Em vez disso, a reconciliação parece mais decidida pela necessidade de encerrar a história do que por um amadurecimento genuíno.
No fim, Isso Ainda Está de Pé quase cumpre o que promete. Aproxima-se de uma dramédia equilibrada, mas esbarra na própria execução.
Joinhas:
3
Por:
@francamentecameras