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Crítica:

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Frankenstein

Novo longa do renomado e premiado cineasta Guillermo del Toro, vencedor do Oscar, Frankenstein surge como um dos projetos mais seguros, e também mais modestos, de sua carreira. Desde O Labirinto do Fauno, considerado por muitos (inclusive este crítico) como sua obra mais autêntica, o diretor não havia apresentado um filme tão contido em termos criativos. Aqui, del Toro opta claramente por “andar no seguro”, entregando uma adaptação extremamente fiel ao romance clássico de Mary Shelley, a ponto de se aproximar de uma reprodução quase literal da obra original.

A narrativa acompanha Victor Frankenstein, um cientista brilhante, porém egocêntrico, que decide ultrapassar limites éticos e científicos ao criar artificialmente uma forma de vida. O experimento, como já consagrado pela literatura e pelo cinema, desencadeia uma tragédia profunda tanto para o criador quanto para sua criatura. Ao “brincar de Deus”, Frankenstein alcança suas ambições máximas, mas desperta a fúria da própria criação, que, rejeitada e abandonada, passa a buscar vingança.

Apesar da força temática do material original, o filme carece de ousadia autoral. Del Toro, conhecido por sua inventividade visual e por ressignificar monstros como figuras trágicas e humanas, aqui parece limitar-se a ilustrar a história. Curiosamente, nem mesmo a maquiagem, uma de suas marcas registradas, se destaca como esperado. Embora a criatura seja visualmente bem construída, é praticamente o único elemento estético que chama atenção. O verdadeiro ponto alto da produção está nas atuações, especialmente a de Jacob Elordi, que sustenta boa parte do impacto emocional da obra. O ator entrega uma performance marcante, carregada de nuances, ao retratar um ser que descobre o mundo pela primeira vez, experimentando sentimentos de abandono, dor e incompreensão. Sua atuação é construída a partir de expressões sutis e escolhas precisas, criando momentos memoráveis. Diante disso, a presença de Wagner Moura acaba sendo inevitavelmente ofuscada, não por falta de talento, mas pela força avassaladora do trabalho de Elordi.

Paradoxalmente, o maior problema do filme está em sua concepção técnica e estética. Del Toro apresenta, simultaneamente, o melhor e o pior de seu estilo: maquiagem impecável, cenários sombrios e uma reconhecida habilidade para criar criaturas icônicas. No entanto, a paleta de cores e o tratamento visual destoam completamente da atmosfera esperada de um terror clássico. O filme é excessivamente claro, com enquadramentos que flertam mais com o cinema fantástico do que com o horror gótico. O resultado é um tom inconsistente, no qual uma das criaturas mais assustadoras da cultura pop é retratada de forma quase inofensiva. Essa indefinição tonal compromete não apenas a ambientação, mas também o roteiro e a experiência geral. A falta de coesão entre forma e conteúdo gera um filme desconjuntado, que não se decide entre o terror, o drama ou a fantasia. De maneira irônica - e talvez involuntária-, o longa acaba refletindo o próprio conceito que retrata: um verdadeiro “Frankenstein”, formado por partes tecnicamente competentes, mas que, juntas, não funcionam em plena harmonia.

Joinhas:

3

Por:

@eduardomontarroyos

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